Sündenfall
Qual a diferença entre Deus e Hitler?
Nos três primeiros capítulos do livro do Gênesis, são expostas as insanidades totalitárias que levaram o homem à condenação. Institui-se um Estado totalitário com características bem marcantes, explicitando-as: deus criou tudo o que existe e sozinho viu que tudo que havia criado era bom (às vezes eu também tenho essa tendência de gostar de tudo o que eu faço, mas não posso esquecer da modéstia); deus fez o homem à sua imagem (porque sua raça era mais pura, quem sabe); deus deu liberdade ao homem para se multiplicar e deu o pontapé inicial para a ciência positivista, dizendo ao homem para que submetesse a terra e dominasse os animais, além de já ensiná-lo, versículos antes, que quando não quisesse assumir responsabilidades, bastava utilizar a primeira pessoa do plural “façamos”; deus também proveu o homem com alimentos, e assim termina o primeiro capítulo.
No segundo capítulo encontraremos o subtítulo “A experiência da liberdade. O paraíso.” Nada mais irônico. Foi deus quem modelou o homem a partir do barro e deu-lhe o hálito de vida para que este se tornasse um ser vivente, tudo no jardim lhe foi submetido, exceto a fruta de uma árvore, aquele fruto que permitiria ao homem decidir, ele próprio, o que era bom e o que era mau. Deus pensava que, havendo suprido o homem com tudo de que necessitava para sobreviver, este não precisava de mais nada. Tudo deus decidiu e impôs ao homem com o poder de seu monólogo, em troca pediu apenas obediência cega e absoluta. Por fim, o homem queria mais do que deus ofereceu, queria a liberdade.
Deus impôs tudo ao homem, privou-o da informação, censurou-o, promulgou o AI-5 (ou coisa pior). Deus instituiu um regime totalitário, populista e paternalista. Instituiu também a punição para aqueles que não seguissem sua cartilha: a morte. “A queda” do homem é assunto no terceiro capítulo do livro do Gênesis.
O que deus fez com os pobres Adão e Eva? Mandou-os para o campo de concentração e alertou-lhes seu fim: “Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.” Respondendo a pergunta feita no início do texto: ora, Hitler percebeu que transformar as pessoas em pó fedia muito, e então criou a câmara de gás.
Cinério
A fumaça do café
A fumaça do cigarro
Da massa cinzenta trabalhando
Emudecida pela carruagem apocalíptica
Que de buzina em buzina cala o pensamento
Os pequenos alto-falantes da consciência
O silenciário de Haydn lança-se ao ar
Esvaindo a humanidade
A nefelomancia de João
Quanta lucidez.
Auguries of Innocence [lines 1-54]
To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour
A Robin Red breast in a Cage
Puts all Heaven in a Rage
A dove house filld with doves and Pigeons
Shudders Hell thro all its regions
A dog starvd at his Masters Gate
Predicts the ruin of the State
A Horse misusd upon the Road
Calls to Heaven for Human blood
Each outcry of the hunted Hare
A fibre from the Brain does tear
A Skylark wounded in the wing
A Cherubim dos cease to sing
The Game Cock clipd and armd for fight
Does the Rising Sun affright
Every Wolfs and Lions howl
Raises from Hell a Human Soul
The wild deer wandring here and there
Keeps the Human Soul from Care
The Lamb misusd breeds Public strife
And yet forgives the Butchers Knife
The Bat that flits at close of Eve
Has left the Brain that wont Believe
The Owl that calls upon the Night
Speaks the Unbelievers fright
He who shall hurt the little Wren
Shall never be belovd by Men
He who the Ox to wrath has movd
Shall never be by Woman lovd
The wanton Boy that kills the Fly
Shall feel the Spiders enmity
he who torments the Chafers sprite
Weaves a Bower in endless Night
The Catterpiller on the Leaf
Repeats to thee thy Mothers grief
Kill not the Moth nor Butterfly
For the Last Judgment draweth nigh
He who shall train the Horse to War
Shall bever pass the Polar Bar
The Beggers Dog & Widows Cat
Feed them and thou wilt grow fat
The Gnat that sings his Summers song
Poison gets from Slanders tongue
The poison of the Snake and Newt
Is the sweat of Enbys Foot
The Poison of the Honey Bee
Is the Artists Jealousy
The Princes Robes and Beggars Rags
Are Toadstools on the Misers Bags
A truth thats told with bad intent
Beats all the Lies you can invent
William Blake
Excertos de Marx
A elevação do salário desperta no trabalhador a obsessão do enriquecimento [típica] do capitalista que, contudo, ele apenas pode satisfazer mediante o sacrifício de seu espírito e de seu corpo. A elevação do salário pressupõe o acúmulo de capital, e conduz a ele. Torna, portanto, o produto do trabalho cada vez mais estranho perante o trabalhador. De igual modo, a divisão do trabalho torna-o cada vez mais unilateral e dependente, assim como acarreta a concorrência não só dos homens, mas também entre máquinas. Posto que o trabalhador baixou à [condição de] máquina, a máquina pode enfrentá-lo como concorrente (Marx, 2009, p. 27).
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2009.
Fundamentos da ação
“Repito, repito com insistência: todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam; e isto é de fato o mais importante. Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão as minhas causas primeiras, em que me apóie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar” (Dostoiévski, 2008, p. 29-30).
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. São Paulo: Editora 34, 2008.
Pobre vocabulário, pobre escrita
Como foi possível verificar no último texto, estou lendo o livro Almas Mortas, de Nikolai Gogol. É uma releitura, na verdade, pois o li quando eu tinha cerca de doze anos de idade. É fato que não lembrava mais a história, no entanto, ao vê-lo na prateleira da livraria Ladeira, não resisti.
Em uma narrativa tão bem construída com humor e sarcasmo, o autor me deixou a pensar, inculcado com minha dificuldade de escrever. Como ele é capaz de conhecer tantas coisas em detalhes tão miúdos? Como adquirir um vocabulário rico? Num determinado trecho do livro ele me deu algumas respostas:
“Peço perdão! Parece que os lábios do nosso herói deixaram escapar uma palavrinha recolhida na rua. Que se há de fazer? É assim a situação do escritor na Rússia! De resto, se a palavra apanhada na rua foi parar no livro, a culpa não é do escritor, a culpa é dos leitores, e muito especialmente os leitores da alta sociedade: são eles os primeiros de cuja boca não se houve uma só boa palavra russa. Em compensação, brindam-nos com vocábulos franceses, alemães e ingleses em tal profusão que chegam a cansar, e fazem-no até conservando a pronúncia de cada um: em francês, anasalada e com rotacismo; em inglês, falam como compete a um pássaro, e até compõem uma cara de pássaro, e ainda zombam daquele que não consegue compor uma cada de pássaro; já quanto ao russo, não nos oferecem nada – a não ser que, talvez por patriotismo, façam construir a sua casa de veraneio em estilo de isbá russa. São assim os leitos de classe alta, e com eles todos aqueles que se consideram de classe alta! E, no entanto, quantas exigências! Querem sem falta que tudo esteja escrito na linguagem mais severa, pura e nobre – em suma, querem que o idioma russo desça de repente das nuvens por si mesmo, bem torneado, e que pouse direto nas suas línguas, as quais eles não precisam mais do que pôr para fora, escancarando a boca. Não se discute que é incompreensível a parte feminina do gênero humano; mas, prezados leitores, é preciso confessar que existem coisas ainda mais incompreensíveis!”
A crítica é clara e permite reflexão. A partir da leitura, podemos afirmar que o enriquecimento do vocabulário se dá pela interação e não em pesquisa ao dicionário. Mikhail Bakhtin afirmava algo parecido. É no discurso alheio que apreendemos o significado das palavras. Agora, se o meio em que vivemos utiliza um vocabulário pobre, a menos que encontremos alguma saída, o nosso também será reduzido. Recordo-me de uma entrevista, na qual uma escritora brasileira dizia que ela era muito feliz por ter nascido em um país de língua portuguesa, porque esta lhe dava muito mais do que ela conseguiria usar. Então vejo duas saídas para o problema: leitura e frequência em meios intelectualizados – de preferência diferentes dos meios citados pelo escritor russo. Ou, por outro lado, intelectualizar os meios.
O vocabulário tem sido massacrado, assim como se pretendia em “1984”, de George Orwell, em que o Estado eliminaria boa parte do vocabulário, de forma a restringir a faculdade de pensar. Com o novo dicionário da “Novilíngua” os pensamentos contrários ao “Partido” estariam praticamente eliminados. Oras, não estamos muito distantes disso. Certamente não temos um Estado totalitário declarado, nem um Partido no poder, nem um “Grande Irmão”, como figura central, mas nosso curto vocabulário não nos permite formular perguntas, questionar, discutir propriamente… Afirmo isso com convicção, pois me lembro de um dia ter escrito uma matéria para um jornal qualquer e, após entregá-la, questionarem-me sobre as palavras que eu utilizara, perguntaram se não poderia reescrever, porque ninguém entenderia, eu deveria transformar aquele texto de forma que todos entendessem, usando palavras comuns…
É claro que nunca mais voltei aquele jornal. Colaborar com o embrutecimento dos espíritos não era para mim. Pois… Foi assim que o autor me deixou irrequieto. Tenho eu também um espírito embrutecido e a luta para modificar isso é exaustiva. Esforço-me para um dia alcançar as palavras com mais facilidade, e usá-las apropriadamente.
O escritor e o seu destino
Trecho retirado do livro “Almas Mortas”, de Nikolai Gógol, publicado em 1842.
“Feliz o escritor que, passando ao largo das personagens enfadonhas, repugnantes, que nos repelem com o seu triste realismo, aproxima-se das personagens que mostram a elevada dignidade humana; o escritor que, no grande torvelinho das imagens cotidianas, soube escolher apenas as poucas exceções, que não modificou jamais a elevada afinação da sua lira, jamais desceu dos seus altos cumes até os seus irmãos humildes e apagados, e, sem tocar a terra, mergulhou inteiro nas suas imagens tão distantes dela e tão exaltadas. Seu destino feliz é duplamente invejável: entre esses caracteres superiores ele está como na própria família, ao mesmo tempo que a sua fama ressoa pelo mundo. Ele obscureceu com incenso embriagador os olhos dos homens; enganou-s com lisonjas maravilhosas, escondendo o que há de triste na vida, mostrando-lhes só o que existe de belo e sublime. Todos o aplaudem e seguem em cortejo o seu carro de triunfo. Chamam-no de grande poeta universal, o que paira alto acima de todos os outros gênios, como paira a águia acima das outras aves de alto vôo. A simples menção do seu nome já faz vibrar os jovens corações ardentes, lágrimas de emoção brilham em todos os olhos… Ninguém o iguala em seu poder – ele é um deus!
Mas diversa é a sorte, outro é o destino do escritor que se atreveu a descortinar tudo aquilo que está diuturnamente diante dos olhos, e o que não enxergam os olhos indiferentes – todo o terrível, espantoso limo de mesquinharia que enlameia a nossa vida, toda a profunda, assustadora frieza dos caracteres fragmentados e vulgares que pululam no nosso tantas vezes amargo e tedioso caminho terrestre; o escritor que, com o vigor do seu cinzel impiedoso, ousou expô-los em alto e nítido relevo aos olhos do mundo inteiro” Não são para ele os aplausos populares, não lhe Será dado ver as lágrimas de reconhecimento e o entusiasmo unânime das almas por ele comovidas; ao seu encontro não correrá a jovenzinha de dezesseis anos, de cabeça virada e coração apaixonado; não lhe será dado deliciar-se com o doce som da sua própria música; e ele não escapará, por fim, ao juízo contemporâneo, ao hipócrita e insensível julgamento dos seus contemporâneos, que chamarão de baixas e vis as criações por ele amadas, reservar-lhe-ão um recanto desprezível no rol dos escritores culpados de ofender a humanidade, atribuir-lhe-ão os vícios dos heróis por ele pintados, roubar-lhe-ão o coração e a alma e a chama do próprio talento. Pois o Juízo contemporâneo não reconhece que são igualmente maravilhosas as lentes que mostram os sóis e as que mostram os movimentos dos ínfimos insetos; não reconhece o juízo contemporâneo que é necessária muita profundeza de alma para iluminar um quadro tirado da vida desprezada e transformá-lo numa jóia de criação; não reconhece o juízo contemporâneo que o riso elevado e exaltado é digno de figurar ao lado do mais alto movimento lírico, e que há todo um abismo entre ele e os trejeitos de um canastrão de feira! Nada disso reconhece o juízo contemporâneo, e transforma tudo em reproche e insulto contra o escritor repudiado; sem companhia, sem resposta, sem compreensão, ficará ele só no meio da estrada. É dura a sua carreira e amarga a sua solidão.
E por muito tempo ainda, por força de um maravilhoso poder superior, será meu destino caminhar ao lado dos meus estranhos heróis, vendo toda a imensa vida que passa, mostrando-a por meio de riso, visível para o mundo todo, e através das lágrimas, para ele invisíveis! E está longe ainda o tempo em que o furioso vendaval da inspiração surgirá de fonte mais possante, num terror sagrado, e os homens pressentirão, tomados de tremor emocionado, o grandioso trovejar de outros discursos…”
She Walks in Beauty
She Walks in Beauty.
Poema escrito por George Gordon, Lord Byron (1788-1824)
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellow’d to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impair’d the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling place.
And on that cheek, and o’er that brow
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
So, we’ll go no more a roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.
For the sword outwears its sheath,
And the soul wears out the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.
Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we’ll go no more a roving
By the light of the moon.
Primeiro passo!
“A felicidade substitui a felicidade e vai se sedimentando.” (Günter Grass, O Tambor)