Da escuridão à luz e da luz à escuridão
Da escuridão à luz e da luz à escuridão.
Alienação, reificação social e a tarefa da Teoria Crítica.
Encontrar-se aprisionado desde o sempre, imóvel, acorrentado, defronte a imagens inverossímeis, opacas do bem que se esconde distante, rodeado por ecos que se toma por vozes de próximos, prisão que se toma por totalidade, de onde não se vê nem o sol e nem a fogueira, nem o muro e nem os objetos, nem os outros e nem a si mesmo.
O sujeito, envolto pela obscurecência de sua inépcia, incapacitado de pensar dialeticamente, depara-se com o sensível e o toma por verdade. Os ecos confundem a inteligibilidade do diálogo. A mão que puxa para a luz é inimiga, tudo o que nega a opinião é mentira e indesejável. Parataticamente reproduz-se o discurso, é sempre mais da mesmice, e o que é mesmice não é contradito e não alcança o que está além. O que é sujeito pode ser tomado por objeto quando assombrado. Acontece que o prisioneiro é impotente, não consegue superar a aparência imediata do que vê e portanto não entende a relação dialética entre as coisas.
O prisioneiro, quando forçado a ter contato com a luz, sofre. Refuta toda a verdade que lhe é apresentada em favor da antiga: é verdadeiro e válido aquilo que exige menos esforço. Somente o tempo poderia curá-lo de sua cegueira, e então o sol se revelaria, e então o mundo seria inteligível.
O prisioneiro é aquele que chega em casa depois de um longo dia de trabalho e assiste novela, porque esta foi feita especialmente para ele: sem complexidades para não suscitar esforço mental. Escuta músicas compostas com a mesma finalidade que a novela: suprimir o valor de uso pelo valor de troca; a cultura se torna uma mercadoria a ser vendida. Seu mundo de sofrimento e falsa consciência lhe parece o único possível, e com o tempo a dominação não precisa mais ser imposta, mas passa a impor-se a partir dele próprio. Por não compreender o sistema, ataca qualquer tentativa de ajuda.
A interpretação que almejo é a seguinte: a “Alegoria da Caverna”, de Platão, inaugura, por assim dizer, o debate sobre a alienação e a reificação social. Se compreendida a partir da dialética ascendente e descendente, a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt escaparia a muitas das críticas que lhe foram feitas, como a que diz que seu maior erro foi postular a reificação total. Como seria possível uma teoria crítica diante a uma reificação total? Simples, Adorno e Horkheimer tinham a consciência de estar em um nível diferente de realidade dos demais, mas ainda assim distantes do sol. A “Alegoria da Caverna” justifica a própria tarefa da teoria crítica de revelar as formas de dominação exercidas sobre os sujeitos que limitam a sua autonomia; estimular o voluntarismo e a emancipação, assim como aquele que saiu da caverna e à ela deve voltar para ajudar aos que lá ficaram.
Ao longo do texto inseri diversas frases que remetem aos dois conceitos que acima defendi. Cito, como exemplo, o segundo parágrafo, que apesar de parecer sair do livro “A República”, é uma descrição de conclusões de pensadores alemães sobre os conceitos supracitados.